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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Lenda da Praia da Rocha

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Esta é a lenda oficial da Praia da Rocha e já tem milhares de anos.
Reza a história que, há muitos, muitos anos (mas muitos mesmo!!!!), pela costa algarvia estava a passar uma bela duma sereia e, cansada como estava, resolveu descansar nas rochas que ali repousavam.
Adormeceu. Ao raiar do sol, esboça um leve sorriso. Os seus olhos vão lentamente abrindo ao som do bater das ondas nos rochedos e começa a vislumbrar uma sombra à sua frente. Assusta-se! Com a aflição os seus olhos abrem melhor e repara que é um velho muito velho, com compridas barbas brancas, umas vestes largas e também compridas brancas. Era Deus!!! Não! Era, como ele disse à bela sereia, o Pescador, filho do Mar. Então o Pescador disse à sereia que não queria que ela se fosse embora, que ficasse com ele, para que casassem, porque ela era, sem margem para dúvida, o ser mais lindo que ele já tinha visto.
O Pescador continuou a cortejar a bela sereia. Ela, muito atenta, já se notava inclinada a aceitar o convite do barbas brancas. Não o fez logo, também já não o fez a seguir. Do alto das rochas apareceu outro velho, este de longas barbas castanhas, vestes largas e também longas, e também castanhas como as barbas. Chamava-se Serrano, e era filho da serra! Também ele queria casar com a sereia e prometeu-lhe as árvores e flores, os montes e vales, as sombras, o cheiro a terra molhada, enfim... Mundos e fundos!
Por sua vez, o Pescador, roubou o direito de antena do Serrano e prometeu à belíssima sereia as ondas, os corais, a beleza dos peixes, o reflexo do sol na agua dos oceanos...
A seguir, a vez do serrano. Depois, a vez do Pescador novamente. E assim foi por meses a fio, sem que a sereia decidisse. E durou tanto tempo, mas tanto tempo, mas mesmo tanto tempo que a sereia transformou-se na bela areia da Praia da Rocha e os dois velhos casaram um com o outro.

em “Tertúlia Cor de Burro a fugir”
(através de Raul Alvito)

Fotografia - Manuel Da Costa - Prainha (Alvor\Portimão)

Ergo os olhos ao céu ...

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Ergo os olhos ao céu e agradeço
a graça de ter vindo a este mundo…
Aqui , neste chão que me pertenço,
neste mar tão belo, tão profundo
é que me encontro, me refaço!
Como se fosse um abraço
que em desespero espero,
o sol oferece-me o braço
e rejuvenesço…
Meu sul, onde adormeço
apaixonada,
de alma leve e lavada,
guarda o meu espaço,
sou tua amante,
por vezes amante ausente…
Mas volto, volto sempre!


Alcina Viegas
(Tavira)

Fotografia - Vitor Pina

Um sonho...quase real

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Tive um sonho
certo dia
que me deixou
a pensar...
... eu ia jurar
que via
rosas brancas a brotar
da espuma
branca do mar.
Era noite de verão
e transparente o luar,
vinha em minha direção
uma música
d`embalar...
Era um canto
de sereia
que me estava
a inspirar
e sentada na areia,
resolvi poetizar...
...
Admiro o mar prateado
este mar que não tem fim
e a lua com seu olhado
a fazer troça de mim.
...
Acordei!...
...
E nesta minha visão
eu consegui perceber
que era mera ilusão
e tentei adormecer.

Mª da Graça Dordio Dimas
(Olhão)

Fotografa - praia de Quarteira por Pedro Cabeçadas
(Faro)

 

Colho e coleciono nesta idade...

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Colho e coleciono nesta idade,
já não inteiro, o tempo
mas dele, apenas breves instantes,
momentos fugazes, flagrantes,
da mais pura e genuína felicidade.

O requebro azul espumoso da onda do mar.
A alavanca franca da anca no seu bambolear.
O sorriso inocente e mágico de uma criança.
A beleza vaporosa da melodia que toca,
nos toca e no corpo convoca a dança.
A bela paisagem que no espanto do olhar se revela.
A gaivota estoica que voa.
Um sino que a destino soa.
Um rosto gasto na vidraça enrugada da janela.

Coisas simples, naturais.
Momentos, instantes e nada mais.

Colho e coleciono tão naturalmente
como quem na praia colhe conchas e búzios
e com eles desenha e faz
o colar de enfeitar os dias
que ao peito tão naturalmente traz.

Colho e coleciono, eu sei
com um afã quiçá prematuro
talvez com o receio
de repente pelo meio
se me acabar o futuro.



Miguel Afonso Andersen
(Ferragudo - Portimão)

Fotografia - Senhora da Rocha - Algarve, por Jorge Florêncio

As grutas (excertos)

 

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O esplendor poisava solene sobre o mar. E – entre duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido – quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente.
Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes.(…)
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim.
(…)
Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra.
(…)
Os palácios do rei do mar escorrem água e luz.
Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são as águas e paredes.
Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio.



Sophia de Mello Breyner Andresen (Obra Poética I)
Através do blog “Lusografias”

Imagem: Gruta da Praia da D. Ana /Lagos, (obtida no “Panorameu”, através do Googgle)

Cetinoso luar...

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Cetinoso luar, querido dos marinheiros,
Luar sentimental do sonho e dos amores,
Que nevas com a luz a água dos ribeiros
E dos lagos azuis deitados entre flores.
Tu vais tecer, de leve, em brancas musselinas,
A baías, o mar: entulhá-los de estrelas;
Romantizas os cais, as ilhas, as colinas,
As curvas dos perfis, o voo ágil das velas.
Vais rolar, sobre a serra e nos vales floridos,
O teu alvo fulgor de mármore e de arminhos:
Tornas os corações bons e compadecidos,
Idílicos; o campo, as estradas, os ninhos…


João Lúcio, (O Meu Algarve, 1905)
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)

Fotografia - S. Joao do Arade - Algarve, por Filipe Santos

 

Oh sol, vibrante sol...

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Oh sol, vibrante sol, do meu Algarve de oiro,
Que fazes palpitar os peitos e os jardins
No mesmo grande amor, fecundo, imorredoiro,
Que rebenta, na Vida, em olhos e jasmins...

João Lúcio, (O Meu Algarve, 1905)
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)

Arte - Carlos José Fonseca Martins, pintor, gravador, escultor, ceramista. Nasceu em Tavira em 1949

 

O Mar


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Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!


António Ramos Rosa, "Facilidade do Ar", Lisboa, Caminho, 1990
(Nasceu em Faro, no Algarve, em 1924)

Fotografia - Manuel Da Costa Photogr@phies - Praia do Vau (Algarve)

 

Madrugada

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São quatro da manhã e, na cidade,
Há luzes em janelas, salpicando
A noite duma alegre claridade.
Batéis de vida e insónia, navegando
No mar da noite velha, sem idade,
Ou, indo trabalhar, velas içando,
Seriam gritos de alma amargurada,
Ou ais de quem a crise pôs sem nada.

São quatro da manhã e minha dor
Quis ir sorver ar fresco na janela.
Se a mágoa só vivesse no calor,
Então o frio dava conta dela.
Porém, não é assim. Só tem valor
Mezinha para o corpo com mazela.
O mal que me acompanha não tem nome,
Mas vai roendo a alma e a consome.

São quatro da manhã e, eu, vendo a lua
Na mais bela das fases: lua cheia.
Por isso, é menos triste a minha rua
Pla branca luz que a sombra mal rodeia.
Por entre o arvoredo, se insinua
Reflexo de automóvel que passeia.
Ali, abandonado, sou também
Criança, a soluçar por não ter mãe.


Tito Olívio, do livro "Folhas Novas"
(Faro)

Fotografia de Faro por Pedro Cabeçadas

 

Arre Burrinho

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Arre burro
De Loulé
Carregado
De água-pé

Arre burro
De Monção
Carregado
De requeijão

Arre burrinho
pra S. Martinho
carregadinho
de pão e vinho

Arre burrinho
Arre burrinho
Sardinha assada
Com pão e vinho
 
 
lengalenga popular
 
Fotografia de Pedro Cabeçadas

 

E o resto é mar...

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Sei do canto das sereias
do ondular das marés...
trago sal dentro das veias
teias de bruma bordada a espuma...
rota que eu hei de inventar
sais de esperança
fantasia
pedaços de maresia
incrustados no meu peito...
porque o meu lugar é aqui
sou criança
sol
sorriso
maré mansa
paraíso...
devaneio nos meus olhos
dentro de mim...mar aos molhos...
sou a pedra no caminho que tateio de mansinho
navegante desta estrada
onde sou tudo e sou nada...
sou o partir e chegar
mais aquilo que preciso
porque tudo o resto é mar!

Dina Soares Oliveira

Fotografia - Praia do Amado (Aljezur), por Euridice Cristo

 

Anverso do mar

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Suspensas no azul do mar
Talvez as cores se multipliquem
E me confundam
Para sentir o céu como um caleidoscópio
E eu seja apenas mais um barco
Em silhueta negra sobre o horizonte
Talvez as ondas me impulsionem
Em remoinhos no crepúsculo
E me lancem para outros oceanos
Como se eu fosse um marinheiro
No verso e no reverso
Do anverso do mar

Fernando Reis Luís, em "Marés & Maresias"
(Monchique)

Fotografia - Alvor\Portimão por Leos Photos

 

Sentado no outono desta praia ...

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Sentado no outono desta praia quase deserta
vou contando os grãos de areia
em volta, e tudo são grãos
de areia onde se inscreve
uma lava
cada vez mais fria. As mãos
na terra, o pensamento nas nuvens
que derivam
ao sabor do vento. Cada vez mais frio.
O mesmo que agita
os meus cabelos brancos.


Casimiro de Brito

Fotografia - Vitor Pina

 

Livre

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A gaivota rasgou a magnitude do céu
e voou em liberdade,
asa branca, no azul sem fim,
no céu que até agora era só meu.
Fiquei presa no momento,
guardei o bailado em movimento,
nos olhos enciumados, a sonhar
com o dia em que, como a gaivota,
meu corpo se faça leve e solto
e livre, possa também voar!

Alcina Viegas, do livro "Pedaços de Mim"
(Tavira)

Fotografia - Senhora da Rocha - Algarve, por Jorge Florêncio

 

À Sirga

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O vento sul

Soprado entre os esteiros
Traz o meu barco
Nos canais da ria

Aqui sou eu que faço a bolina
Porque as margens
São filhas da minha voz
E as rotas dos barcos nascem
Por dentro dos meus olhos cavos
E dos sussurros das musas
Que vão no vento
Filho dos meus lábios

A minha terra é para além da salsugem
E o vento sabe que habito a norte
Por isso me devolve ao leito
E ao ancoradouro
Levando-me à sirga
Puxado pelas suas brisas
E pelas tranças mouras

Fernando Reis Luís, do livro "Marés & Maresias"
Fotografia - Henrique André
(Faro)

 

Meu Algarve

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Meu Algarve encantador,
P´ra o poeta e p´ra o pintor
Tens motivos de sobejo…
Até eu, se tivesse arte,
Queria ao mundo mostrar-te
Como te sinto e te vejo.

Meu Algarve encantador,
A par da tua alegria,
Tens o encanto, a magia,
Das amendoeiras em flor.

Meu qu´rido Algarve em Janeiro,
Ao turista endinheirado,
escondes o corpo ulcerado
no fatinho domingueiro.

Só vêem flores os olhos
Desses ilustres senhores
Mas no Algarve, os abrolhos
São muito mais do que as flores.

Mas quem, como eu, o conhece,
Sabe que ele infelizmente
Por dentro é muito diferente
Do que por fora parece.

 

António Aleixo (Vila Real de Santo António, 18/2/1899 – Loulé, 16/11/1949)

 

Arte - Albufeira (Praia dos Barcos), por José Amando de Lima Dâmaso

 

Princesa do Sul

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Tarde plena. A cidade, nesta hora,
Enche-se de luz. O sol aquece-a
E dá-lhe uns tons doirados, como outrora
Teixeira Gomes só achou na Grécia.

Daqui até à Rocha, ir de viagem,
A bem dizer, é como dar um salto
E embebedar os olhos de paisagem
Onde ela atinge o esplendor mais alto!

Ali, obra de Deus, que não de humano
Poder, é tanta a mágica beleza,
Que, diante dela, até o velho oceano
Humildemente se ajoelha e reza!...

E quando a noite vem, cobrindo tudo
Do negrume estrelado do seu manto,
Acende-se um presépio em Ferragudo,
Refletindo no rio um raro encanto...

Mas, dia ou noite, é sempre uma visão
Estranha e bela de país de sonho
A que se tem, aqui, em Portimão,
Donde, às vezes, me vem a inspiração
Para os humildes versos que componho!

Ó Princesa do Sul! Inutilmente
Me consumo no intuito de cantar-te!
_ Senhor! Tanta beleza em minha frente,
E eu com tão pouca, ou sem nenhuma arte!...

(excerto)

João Braz, em "Esta Riqueza Que o Senhor Me Deu..."
(S. Brás de Alportel-13 de março de 1912 \ Portimão - 22 de junho de 1993)

Fotografia - Jesus Municio (Entardecer em Ferragudo)

 

Alentejo, Alentejo

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Alentejo, Alentejo
Eu sou devedor à Terra
A Terra me ‘stá devendo
Eu sou devedor à Terra
A Terra me ‘stá devendo
A Terra paga-m’em vida
Eu pago à Terra em morrendo

Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão
Eu hei-de ir ao Alentejo
Mesmo que seja no Verão
Ver o doirado do trigo
Na imensa solidão
Alentejo Alentejo
Terra sagrada do pão

Daqui para a minha terra
Tudo é caminho e chão
Daqui para a minha terra
Tudo é caminho e chão
Tudo são cravos e rosas
Dispostas por minhas mãos

Música Popular Alentejana

Arte - Cantadeiras

 

Ó Vila de Olhão

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Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do povo
Madrasta é que não
Com papas e bolos
Engana o burlão
Os que de lá são
E os que pra lá vão
E os que pra lá vão
E os que pra lá vão

Ó flor da trapeira
Ó rosa em botão
Tuas cantaneiras
Bem bonitas são

Larga ó pescador
O que tens na mão
Que o peixe que levas
É do teu patrão
É do teu patrão
É do teu patrão

Limpa o teu suor
No camisolão
Que o peixe que levas
É do cais de Olhão

Vem o mandarim
Vem o capitão
Paga o pagador
Não paga o ladrão
Não paga o ladrão
Não paga o ladrão

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do povo
Madrasta é que não

Quem te pôs assim
Mar feito num cão
Foi o tubarão
Foi o tubarão
Foi o tubarão

Mulher empregada
Diz o povo vão
Que aquela empreitada
Não dá nada não

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha da povo
Madrasta é que não
Madrasta é que não
Madrasta é que não

Ó pata descalça
Deixa-me da mão
Que os da tua raça
Já não pedem pão

Passa mais um dia
Todos lembrarão
Passa mais de um ano
Já não pedem pão

Ó vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do povo
Madrasta é que não


José Afonso

Fotografia de Olhão (açoteias e mirantes)

 

Cantar Camponês

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Meu cantar sempre aparece,
quando na terra pressente,
a força do gesto breve,
do germinar da semente.

Faísca cártamo-flor,
na escuridão da campina.
Não sejas mais criador,
onde o tirano domina.

Forquilha da nossa guerra,
guerra da nossa forquilha.
A guerra não nos aterra,
só a fome nos humilha.
 

Monteiro Pote
(Alentejo)

Arte - António Lino. - "Ceifeiras" Museu do Chiado, Museu Nacional de Arte Contemporânea
 

Os meus versos

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Os meus versos o que são?
Devem ser, se os não confundo,
pedaços do coração
que deixo cá neste mundo.

António Aleixo
(Vila Real de Santo António, 18 de fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de novembro de 1949)

Ilustração - Estátua de António Aleixo em Loulé
 

O Meu Algarve ...

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Como tu és diferente, oh mar doce e saudoso,
Oh mar do meu Algarve, enternecido mar,
Do sinistro oceano escuro e ardiloso
Que esmaga os navios para os poder roubar!
Tu nunca, como ele, assassinaste, rindo,
Noivos a viajar, poetas, marinhagem,
Que sonham no convés, quando o luar, subindo,
Risca em prata na água o sulco da viajem…
Tu vais cantar de noite à beira dos moinhos,
Das colinas, dos cais, das praias murmurosas,
Para embalar o sono às aves nos seus ninhos
E para destruir a insónia das rosas…
Quando perto de ti as namoradas choram,
Meu belo aventureiro azul, vais consolá-las;
Por isso, lindo mar, elas tanto te adoram:
Abrem-te o coração, sempre que tu lhes falas…
Tu vais adormecer sobre o barco, cantando,
O pobre pescador cansado de remar…
Pra poderes tornar o seu mais brando;
Nem o barco, sequer, lhe fazes oscilar…
Tu vais fazer vibrar as pequeninas ilhas,
Emergindo de ti, brancas, silenciosas,
Na melodia azul das vagas e das quilhas
E das velas correndo, alvas e luminosas.
Vais fazer latejar, numa glauca harmonia,
As rochas junto a ti erguidas e soldadas,
Meu lindo mar do Sul, oh mar da Fantasia,
Da Aventura, do Amor, da Lenda e das Baladas!

João Lúcio, (O Meu Algarve, 1905)
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)

Arte - Eleitão Eduardo

Quantas vezes ...

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Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas
inteiras. Praias de cinza invadidas
pelo vento. Quantas estações quantas noites
indormidas. Embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado. Na cal frágil
dos meus ossos. Nas hastes do mar
infiltradas no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos.


Casimiro de Brito

Fotografia de Filipe Santos

 

Céus do Sul

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Cada vez irei mais para o sul, onde os dias são longos e as noites mágicas. Onde o sol é mais dourado e o céu se pinta de outros azuis. Onde o Verão entra pelo outono e começa ainda na primavera.
Cada vez irei mais para o sul, onde o mar se faz calmaria e é morno e doce. Onde algures sei que existe uma casinha branca, com buganvílias até ao telhado e um limoeiro no meio do quintal, à espera da minha chegada.
Sim, cada vez irei mais para o sul e sempre junto ao mar. Talvez porque envelheci e os longos invernos tornaram-se insuportáveis. Talvez porque me apeteça, de novo, ser criança, deixar-me ficar a respirar maresias, brincar com as conchas e observar as gaivotas, regressando à casa branca no poente da tarde calma, para regar as buganvílias e cuidar do limoeiro... porque a felicidade às vezes é tão apenas isso!


Teresa Afonso

Fotografia - Senhora da Rocha por Jorge Florêncio

Há quem conheça de cor ...

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Há quem conheça de cor
tudo aquilo que quer
e tudo aquilo que não,
Há quem saiba melhor
o que deverá fazer
em qualquer ocasião,
Há quem reconheça até
todas as particularidades do seu ser,
Há quem desconheça as correntezas
contraditórias que coexistem na maré,
Há quem viva de certezas!

Mas eu
tenho a alma fragmentada
em mil pedaços multicores de vitral,
Eu
demoro-me na encruzilhada
à espera de um sinal.

Eu vivo de sonhos e contradições,
Tentações, dúvidas, desvarios, desespero
- que a verdade reside no que minto
e é o meu engano mais sincero:
- Como não sentir, se sinto?
- Como não querer, se quero?

Eurídice Cristo
(Olhão)

Arte - Clara Andrade
(Portimão)

 

Ausência

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Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
- pastores das ascéticas planuras –
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
- Que é dele, o eterno Ausente,
- Cantor da nossa melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
- Onde estou? Onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

- Ventos, que novas me trazeis das rosas,
Que acendiam clarões no meu jardim?

- Pastores, que é do vosso companheiro?

- Saudades minhas, que sabeis de mim?


Mário Beirão, em "Antologia Poética"
(Beja -1890 \1965)


Fotografia - Alentejo por João P. Santos Photography

João P. Santos Photography.

Miragens

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Ah! Como a Vida parecia bela!
Barquinho esbelto, como de cartão,
Deslizando, ao sabor da viração
Num lago azul e calmo, de aguarela!

Pelas margens corria, paralela,
Fragrante multicor vegetação.
No ar, dormente, errava uma canção…
E a Esperança me impelia a vela!

Mas o lago, traiçoeiro, encapelou-se
O meu barquinho, frágil, afundou-se,
E eu, náufrago, abraçado a uma tábua.

Gasto a vida a lutar, ingloriamente,
Pr`a resistir à força da corrente,
Pr´a conservar-se à superfície d´água.
 

Armando do Carmo Miranda, "Almanaque do Algarve", nº. 2, 1943
(jornalista, poeta e cineasta - nasceu em Portimão, em 16 de novembro de 1904 e faleceu no Brasil, em 1975)

Arte - Alvor Algarve, por Eleitão Eduardo

 

Seja no inverno ou no estio...

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Seja no inverno ou no estio,
Trago um sol cor de açafrão
No girassol que desvio,
Pondo na palma da mão
Este azimute do sonho,
Este azulejo celeste,
Este elixir que ainda ponho
No beijo que não me deste.
Trago um sol pela azinhaga
Do fascínio mudéjar;
Malado, que o dia traga
Todo o mundo… o meu lugar.

Manuel Neto dos Santos, do livro "Sulino"
(Alcantarilha)

Fotografia de Bruno Palma

 

Casa Algarvia

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a barrinha azul ao comprido da fachada

branca
é para rimar
com o debrum a mar
ao longo
do horizonte
Azul
rima
com Sul.

Teresa Rita Lopes, "O Sul dos meus sonhos"
(Faro, 1937)

Fotografia - casas típicas do Algarve

 

Momentos

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É lusco-fusco agora,
o mar adormeceu
mesmo a meus pés…
Virão outras marés,
mas este momento é meu,
é esta a minha hora,
a noite aconteceu !

Allcina Viegas
(Tavira)

Fotografia- Albufeira (paradiseintheworld)

 

Asa

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Ansiosas de liberdade
e de igualar o voo das gaivotas,
as palavras soltam-se no vento,
que as desgrenha,
enrodilha,
e deixa cair
sobre as águas, revoltas,
de um mar de flor.

Luísa Dacosta, em " A maresia e o sargaço dos dias"

Fotografia - Senhora Da Rocha por Jorge Florêncio

 

Errante

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Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

 


Florbela Espanca

Arte - Simão César Dórdio Gomes. - Museu de Évora

Caleidoscópio Alucinado

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Sinto que posso recomeçar
Partilhando o instinto
Em todas as arcanas rotas
De mar hiante
E desbravar ilhas selvagens
Redescobrindo as sombras
Na alquimia da luz e dos gritos

Nas correntes que sigo
Posso recontar o tempo
Pela voz das ampulhetas
E fazer a metamorfose das águas
Iluminando as penumbras cambiantes
Que misturam os gestos e o corpo
Num caleidoscópio de arco-íris
Alucinando o sol e os olhos
Nas cinzentas manhãs de renascer
Neste mesmo lugar
Donde parto sem saber se voltarei.


Fernando Reis Luís , do livro Marés & Maresias
(Monchique)

Arte - Ilustração do livro Marés & Maresias, por José Maria Henriques Oliveira

 

A noite

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A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só...


António Ramos Rosa
(Faro, 17 de outubro de 1924 – Lisboa, 23 de setembro de 2013)

Composição fotográfica elaborada com fotografias de Pedro Cabeçadas
(Faro)

Cravada no mais fundo do meu ser...

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Cravada no mais fundo do meu ser
Tenho a adaga berbere e o alazão;
Meu corpo é de canela, e de açafrão,
E de alfazema o beijo… o que aprouver.
Ó noites de alaúde, noites de harém,
Em vós a cáfila que o silêncio tem.

Manuel Neto dos Santos, do livro "Sulino"
(Alcantarilha)

Fotografia - Rio Gilão- Tavira, por Leos Photos

A Lenda da Moura Floripes (Olhão)

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Na lenda, Floripes podia ser vista pelos pescadores que, de madrugada, saíam para ir para o mar trabalhar A bela jovem tentava os homens, desafiando-os a atravessar a ria com uma candeia acesa nas mãos. O que conseguisse seria dono do seu coração e do reino do seu pai. Se falhassem, afogavam-se na ria.
Não houve nenhum pescador que quisesse correr tais riscos, por isso a moura continuava encantada continuando a aparecer durante muito tempo naquelas ruas muito estreitas.
Conta a lenda que nunca chegou a perder o encanto.

Fotografia - Estátua da Moura Floripes, em Olhão por Jorge Manso