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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

O Meu Algarve

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Terra dos figueirais e das vinhas Formosas
Do luar novelesco, embriagante, albente,
Onde o Sol sensual cansa os nervos das rosas,
Numa volúpia de oiro intensa, absorvente…

João Lúcio, (O Meu Algarve, 1905)
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)

 

Mosaico fotográfico criado pela página RUMO AO SUL

Todo o poema começa de manhã,

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Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

Nuno Júdice
Mexilhoeira Grande - 29 de abril de 1949

O Meu Algarve ...

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Para te adormecer, Deus pôs-te perto o mar
E, para fecundar a tua fantasia,
No vasto palco azul, erguido nos espaços,
Fez mais belo para ti o drama em oiro – o Dia,

João Lúcio, "O Meu Algarve", 1905
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)

Fotografia- Albufeira por Vitor Pina - Photography

 

Olhas para além do muro

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Olhas para além do muro; e
o que vês? O tempo para além do tempo,
a tarde que não chega, ou a noite que
vai chegar quando menos a esperas,
uma última ave no limite
do céu, pedindo-te que a não sigas.
Mas não cedas ao abraço da árvore,
ao apelo das raízes, à melancolia
de um desejo de horizonte. Encosta-te
a esse muro, sabendo que ele desenha
o espaço que te foi dado, e que as tuas
mãos descobrem no frio da pedra.
Não te resignes ao que existe. A ave
que desapareceu por trás da colina conhece
o caminho que os teus olhos procuram.

Nuno Júdice
(29 de abril de 1949, Mexilhoeira Grande)

Fotografia - Faro por ©Daniel Barata

 

Liberdade

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Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen, no livro " Mar Novo"
 
Mosaico fotográfico criado pela página RUMO AO SUL

 

A Saudade do Mar

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Qual de vós não sentiu ainda bem vibrante,
Oh corações do Sul, que adormenta o luar,
Quando vos encontrais do oceano distante,
Palpitar dentro em vós a Saudade do Mar?!
[...]
A alma que nasceu junto da tua água,
Que a ouviu murmurar, gritar e soluçar,
Não pode, sem que sinta uma estranha mágoa,
Afastar-se de ti, oh empolgante mar!
 

João Lúcio
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)
 
Mosaico fotográfico criado pela página RUMO AO SUL

 

Arre Burrinho

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Arre burro
De Loulé
Carregado
De água-pé

Arre burro
De Monção
Carregado
De requeijão

Arre burrinho
pra S. Martinho
carregadinho
de pão e vinho

Arre burrinho
Arre burrinho
Sardinha assada
Com pão e vinho
 
Lengalenga popular
 
Fotografia de Pedro Cabeçadas
(Faro)

 

Ontem... Hoje e Sempre!

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Ontem... Hoje
e Sempre!

Uma chuva fininha
numa paisagem distante.

Uma tarde vazia
um pensamento errante.

Um livro aberto
uma folha em branco.

Um cigarro apagado
um momento indiscreto.

Um sonho acordado
num olhar profundo.

Uma musica de fundo
um rasgo de solidão.

Uma Estrela cadente
um toque no coração
numa alma que sente
a dor da separação.

Um caminho sem saída
numa viagem sem retorno
Uma história perdida
num momento de transtorno.

Um Ontem sofrido
Um Hoje presente
Um poema sentido...
Ontem... Hoje e Sempre!


Maria da Graça Dórdio Dimas, no livro "Luz do meu Silêncio"
(Olhão)

Mosaico fotográfico de Pedro Cabeçadas
(Faro)

 

Portugal

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Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjetivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, em 'Feira Cabisbaixa'
 
Mosaico fotográfico criado pela página RUMO AO SUL

 

O Medo

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O que sustenta os nossos papões é o medo
que deles temos.
Se lhes fizermos frente
acabam por nos respeitar.
Só o escravo obedece ao senhor que o ameaça
de chicote em riste:
“Se falas levas mais!”
Assim fizeram aos gregos os Senhores desta Europa
de que nos querem escravos.
Eles e os seus lacaios exibem-nos como exemplo
de que desobedecer é pior
mas só quem é burro se deixa levar:
vejam que não votaram nos que os escravizaram!
Iremos mostrar ao mundo que valemos muito menos
que os gregos? Receio bem que sim!
O Alexandre O’Neill ironizou num poema
de cotovelo apoiado num guichê
de uma repartição pública:
“Onde veio parar a madeira das naus!”
Que dirias tu, Alexandre, desta gente que somos
não só burocraticamente amorfa
mas abaixo de cão: nem ladra quando é roubada!
Os nossos avós navegadores
fazem manguitos aos Senhores que nos compraram
na feira de escravos da dita União Europeia
mas nada mais podem fazer
no seu distante Além.
Aguentámos mais de quarenta anos a União Nacional
(eu não que fugi e amarguei o exílio)
e muitos querem agora lamber a mão desta nova União!
Desgraçada gente que perdeu o brio de encarar de frente
não o Gigante Adamastor mas os pequeninos déspotas
que arrebanham e arrecadam o vil metal
ganho com o suor dos escravos!
Nunca o nosso Portugal esteve tão perto de deixar de ser
alguém ou algo com destino próprio!
Conforta-me assistir aos ímpetos
de umas Padeiras de Aljubarrota
que por essas ruas e ecrãs se batem contra a cabeça baixa
da cobarde gente em que nos tornámos!
Os espoliados não têm culpa de ser pobres
mas os cabisbaixos sim! da sua cobardia!
Antes queria ver a pobre gente que somos
esfomeada e esfarrapada mas viva! estrebuchando vida
pronta a recuperar a sua razão de existir!

Teresa Rita Lopes
(Faro, 1937)
 
Fotografia de Teresa Rita Lopes editada pela página RUMO AO SUL

 

Tercetos

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178
Os amores são frutos
Selvagens e livres
Como as amoras das silvas

179
Todas as fronteiras
São muralhas virtuais
Que as palavras poderão atravessar

180
Talvez com giz mole
Possa marcar nas pedras
Um caminho na noite

.
Fernando Reis Luís, do livro "Trezentos e Trinta e Três Tercetos" Arandis editora 2015
(Monchique - 1945)

Arte - pintura de Leandro Lamas Ermida no livro "Trezentos e Trinta e Três Tercetos"

 

Oh lua!

 

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É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
De um sol, como o que eu trago
No seio onde o afago,
No seio onde o aperto?
Oh luz órfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto?
(excerto)

João de Deus, em "Campo de Flores"
(São Bartolomeu de Messines- 8 de março de 1830\ Lisboa -11 de janeiro 1896)

Fotografia de Ferragudo\ Algarve por João Carlos Fino Figueiras
(Portimão)

 

Coração sem Imagens

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Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raúl de Carvalho, em “Obras de Raul de Carvalho”
(Alvito \ Alentejo, 4 de setembro de 1920 — Porto, 3 de setembro de 1984)

Fotografia - de João P. Santos
(Alentejo)

 

Viver para amar

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Várias formas e feitios tem o amor.
A vida é curta, mas natural.
O destino é incerto, mas também a dor,
Pois o sentido da vida passa por encontrar o tal.
Receio de viver,
Receio de perder,
O amor, por vezes, perdura,
Contudo, noutras, a realidade é dura.
Nós não podemos vencer a morte,
Mas podemos vencê-la na vida (por vezes),
Tirar proveito até ao fim da corrida.
É se então uma pessoa mais forte!

 


João de Deus
(São Bartolomeu de Messines- 8 de março de 1830\ Lisboa -11 de janeiro 1896)

Fotografia de João de Deus editada pela página RUMO AO SUL

Morre o pobre

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Morre o pobre e nem caixão
Vai no esquife, que desgraça!
Para o cemitério passa
Sem padre nem sacristão!...
Quem fará esta excepção?...
Se é Deus que rege os destinos
Dos grandes e pequeninos,
E todos são filhos seus...
Pra desmentir esse Deus,
Morre o rico, dobram sinos.

Diz, padre, que leis são essas
Que servem pra ti somente...
Tu confessas toda a gente
E à gente não te confessas...
Diz por que tanto te interessas
Nesses segredos que encobres,
Porque é que não te descobres
Nos jornais ou num sermão,
Dizendo porque razão
Morre o pobre e não há dobres?

Só os ricos são gerados,
Dessa Virgem, desse Deus?...
Só eles são filhos seus
E os pobres são enteados?...
Padre, tu só tens cuidados
Com os ricos, teus compadres,
Que deixam ir as comadres
Esmolinhas oferecer
A Deus, sem ninguém saber...
Que Deus é esse dos Padres?...

Qual é o Deus que autoriza,
Ao rico, mil esplendores,
E aos pobres trabalhadores,
Nem pão, nem lar, nem camisa?...
Manda, pra quem não precisa,
O oiro, a prata e os cobres,
Palácios, honras de nobres!...
E eu, triste farrapo humano,
Julgo esse Deus um tirano,
Que não faz caso dos pobres


Bernardo de Passos
(São Brás de Alportel, 1876 — Faro, 1930)
 
Fotografia de Bernardo de Passos editada pela página RUMO AO SUL

 

Outono da vida


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Breve chegou o outono meu amor,
as noites vão passando tão vazias
de lembranças, sem o calor
das tuas mãos nas minhas, frias…
Breve passa o tempo e a idade,
e a velha árvore onde escrevemos
na nossa mocidade,
os nossos nomes – os velhos ramos
estão a ficar despidos,
caem as folhas na calçada
por onde passeei, enamorada…
Sabes?
não estou preparada para o outono,
e breve, muito em breve, sem contorno,
chegará o nosso inverno!

Alcina Viegas
(Tavira)

Arte - Carlos José Fonseca Martins,
(pintor, gravador, escultor, ceramista. Nasceu em Tavira em 1949)

 

Lenda do Carvoeiro

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Há muito muito tempo, pelas terras do sul de Portugal, no Algarve, viveu um rei mouro de nome Benagil, que tinha uma filha muito bela chamada princesa de Alfanzina. Gostava a princesa de passear junto ao mar até que certo dia num dos seus passeios encontrou um garboso moço chamado Carvoeiro por quem se apaixonou. Todos os dias se encontravam os namorados até que seu pai Rei Benagil descobriu o seu romance e proibiu a princesa Alfanzina de namorar com o Carvoeiro. Afastados um do outro sentiam muitas saudades e resolveram encontrar-se às escondidas de seu pai num lugar secreto chamado Algar-Seco. Os dois apaixonados emocionados abraçaram-se, sem reparar que estavam a ser seguidos pelo Rei mouro que enfurecido com a desobediência da sua filha trespassa o moço com a sua adaga, tirando-lhe a vida. O corpo do Carvoeiro cai ao mar e é levado pelas ondas. Desde então a princesa Alfanzina refugia-se no local onde foi morto o seu amado e aí chora as suas mágoas. As suas lágrimas caiam nas rochas. Eram tantas, que cavaram pequenas aberturas por onde as águas do mar se vêm juntar às lágrimas da princesa.
(popular)

No Blogue “Jardim de Infância Carvoeiro”

(Através de Raul Alvito)

Fotografia - Algar Seco, Carvoeiro

 

O Pastor Alentejano

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O pastor alentejano
tem seu cão por companhia
nos campos do Alentejo
onde passa noite e dia.

Onde passa noite e dia
todos os dias do ano,
tem seu cão por companhia,
o pastor alentejano.

À noite, ouvindo a raposa,
o rouxinol no silvado,
de samarra e ceifões,
encostado ao seu cajado.

Encostado ao seu cajado,
lá nos campos ao rigor,
anda a guardar o seu gado.
É a vida do pastor

CANCIONEIRO DE SERPA
De Maria Rita Ortigão Pinto Cortez
Edição da Município de Serpa, 1944

Imagem - postal ilustrado - "pastor alentejano"

Esperança


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Acordei!
Abracei a vida!...
Ensaiei um sorriso...
agarrei um raio de sol...
ganhei coragem!...
Parti!
Voei à procura
de quem está triste...
ofereci-lhe
o meu sorriso!...
Continuei voando!
Encontrei a noite
em vários corações...
ofereci-lhes o raio de sol!...
Por fim,
entreguei a minha coragem,
a quem perdeu as forças
p`ra lutar!...
E continuei!...
Continuei voando...
na Esperança
de conseguir melhorar,
a Vida,
de quem possa precisar!


Mª da Graça Dordio Dimas
(Olhão)

Fotografia de Pedro Cabeçadas
(Faro)

 

Assim a Casa Seja

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Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E paras no tapete

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Unidos pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta.

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja.


Lídia Jorge, (Inédito)
(Loulé, Boliqueime, 18 de junho de 1946)

Arte - Clara Andrade
(Portimão)

 

Sou espera que tempo tem

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Não sou rio nem árvore nem gaivota.
Nem peixe nem fada nem marmota .
Sou gente e não sou “ninguém”!
Sou espera que tempo tem,
um coração em peito aberto,
caminho no deserto,
água que corre no rio
banhando teu corpo doirado,
afagand’ o teu cabel’ anelado....
sou pedaço daquilo que és...
sou um sonho e não sou...
sou a vida que te corre nas veias...
sou o sol que te beijou...
sou tudo e nada sou!
Sou o que tu quiseres!...
Mar calmo ou revolto...
infinito perdido
n’ eternidade.........
anjo ou demónio
no caminho em que vou
Sou tudo e nada sou!


Margarida A. Tavares
(Faro)

Fotografia de Diamantino Inácio
(Faro)

 

Não Creio nesse Deus

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I

Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II

Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?

III

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

.
António Aleixo, em "Este Livro que Vos Deixo..."
(Vila Real de Santo António, 18 de fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de novembro de 1949)

Retrato de António Aleixo

Maré baixa

 

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Gosto de ficar olhando o mar…
Tenho sangue marinheiro
e verde no meu olhar.
Mar, que pode ser sereno
como um amor terno e belo
ou ser raiva e transbordar
numa maré de paixão.
Adoro o mar,
trago-o no coração,
o mar que namora o sol
e se deita com a lua
em rendas feitas de espuma
na areia que é só sua…
E do amor vão deixando
marcas de vida
que piso … e qual rosa garça
me deito na maré baixa.


Alcina Viegas

Fotografia , Senhora da Rocha por Jorge Florêncio

 

Évora

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Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me almoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ...

 

Florbela Espanca

Meus ímpetos de luz

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Meus ímpetos de luz, sobranceiros ao mais secreto dos mundos, pedem- me que vos cante;
Não sei se o faça.
Aqueço, nas mãos, um beijo soalheiro pois que a bênção da tua memória me apunhala, por desgraça.

Meus ímpetos de luz, a noite erguida;
Que há muito já estou morto…
Apregoando a vida.

 

Manuel Neto Dos Santos, "Círculo de Fogo" (a publicar)
(Alcantarilha)

Fotografia - Paulo Carvalho Photography.

Os teus olhos

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Os teus olhos
trazem o mar até à minha porta
e à memória cruzada
de um tempo, outro, entre o riso e a espada.
Entre a espera e a esperada.

Nos teus olhos
flutua o instante que se ganha, que se perde
e que o tempo suspende, suporta
e atrasa,

que se espraia num mar entre o azul e o verde
e em cada manhã chega à minha porta
e entra resplandecente e manso, pela casa.

Miguel Afonso Andersen, em "O início das águas"
(Ferragudo - Portimão)

Fotografia - Vitor Pina - Photography

Chegaste

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Chegaste
carregando o vento
de todos os oceanos

e eu
fio de horizonte
cais sem barcas
ou onda sem maré
desatei os passos
do meu mundo de cegueira
e dentro de mim
acanhei a dor das incertezas

quis
quebrar as margens
como brisa louca
tingir de sangue o mar
transpor a espuma
que envolve o meu corpo branco
mas a noite
trouxe de volta os sonhos
e eu não tinha as tuas mãos

soletrei
(depois)
o teu nome de cal ao amanhecer
incendiei o bosque
da tua imagem invertida
roubei a luz dos espelhos túmidos
e entreguei ao tempo nu os gestos
com que (des)vestiste os meus olhos
de pétalas caídas

pela exactidão das águas
sei agora
que as aves já não voam
no teu olhar esmaltado
nem a tua boca
(que me mordia)
nascerá nos meus seios plenos!...

 

Mariana Valente (mariAna)
(Serpa)

Fotografia - Cais Palafítico da Carrasqueira (Alentejo) por João P. Santos

Canção Longe

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Ó meu bem se tu te fores
Como dizem que te vais
Deixa-me o teu nome escrito
Numa pedrinha do cais

Quando o meu amor se foi
Sete lenços encharquei
Mai’la manga da camisa
E dizem que não chorei

Meu amor vem sobre as ondas
Meu amor vem sobre o mar
Ai quem me dera morrer
Nas águas do teu olhar

 

José Afonso

Arte - Eleitão Eduardo
(Portimão

Selvagem como um deus

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Selvagem como um deus…
Estou perante tudo
Como uma rocha,
Como o musgo;
Na férrea e sedosa vestimenta
De sonhos que ainda não são meus.

*
Sou o intervalo entre dois silêncios;
Com passo certo
Para a música
Das esferas paralelas.
Sustido e sustenido,
Suspeito do rumor
Que se esconde em todas elas.
Batendo sobre a praia do meu rosto,
A maresia suave da aragem
Traz- me uma memória,
Que não quero ter, nem sentir…
Os grãos do que antes fui
Ganham novas formas, sendo os mesmos,
Duna que se ergue e que se desfaz
Na permanência da coragem.

 

Manuel Neto Dos Santos
(Alcantarilha)

Meu Alentejo

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Meu Alentejo de que eu gosto
Inundado de secura,
Minha terra prometida
Semeada de Amargura.
Meu Alentejo que eu quero
Inundado de tristezas,
Minha terra ressequida
Trás no silêncio ... Incertezas.
Meu Alentejo que eu amo
Inundado de abandonos,
Onde a semente caída
Não deu bago, pelos Outonos

 

Natividade Coelho

(extraído de O ALENTEJO NA POESIA por Marcos Olímpio Gomes dos Santos)

Arte - Estremoz por Isabel Zamith

O Algarve é branco ...

 

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O Algarve é branco manchado
De espuma branca do mar,
Quando o mar endiabrado
Anda com ele a brincar!...

O Algarve é branco nas belas
Chaminés tão rendilhadas
Das suas casas singelas
Todas de branco caiadas!

O Algarve é branco enfeitado
De roupa branca, estendida
Aqui e além no relvado
Enchendo os campos da vida!...

O Algarve é branco nas praias
Quando as ondas, uma a uma,
As vestem de brancas saias
Feitas de rendas de espuma!

O Algarve é branco nas velas
Dos seus barcos navegando
Em mar azul, sem procelas,
Que de branco vão pintando!...

O Algarve é branco nos dias
Que as amendoeiras em flor
Lembram neve em terras frias
Tão semelhantes na cor!

O Algarve é branco à noitinha
Quando a lua, ao despertar,
Enche a paisagem inteirinha
De luz branca de luar!

O Algarve é branco, tão cheio
Por toda a parte de alvura,
Que alguém que passe em seu meio
Enche a alma de brancura!...



Elisa da Conceição Silva Maçanita
(Portimão)

Fotografia - Artur Pastor, em Archivo Photographico da C.M.L.

De pedra e cal

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De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras

de pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras

Caminha devagar
Porque o chão é caiado



Sophia de Mello Breyner Andresen, no livro "Geografia"

Fotografia - Cidade de Lagos por Isaura Almeida