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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Corridinho

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Tinha por regra correr, como doido, atrás da vida e na pressa desmedida erguia-se o meu viver. Corria atrás de mim mesmo como de fera evadida; que galope era essa vida, pelas fazendas, pelo sesmo. Que baile de roda o meu, que corridinho mandão; mandador castiço, o céu. Música, nas pedras do chão. Rodopiavam-me os pés eu às voltas, desmandado sentindo, de lés- a- lés, no meu corpo o mar espumado. Tinha, por par, a esperança, com olhos negros de amora e a tez mora que agora é só esperança de somenos. Bêbados, de tanta dança, despenteada a aurora faz, dessa esperança de amora, os madrigais mais serenos. Tombado por terra, arfando, rasguei a boca, sorri quando, a meu lado, então vi a poesia…descansando.

Manuel Neto dos Santos. OXALÁ, LUZ AZUL, inéditos

 

Monte Boi

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Ó Monte Boi; retiro com o céu à minha altura.
As nuvens, se quisesse, tocava com os dedos.
Ninguém mora nas casas, os templos dos segredos
da história de outras vidas, constante formosura.
Mirante que me oferece o Sul, numa bandeja,
neste vasto horizonte que me avizinha o mar...
e eu esqueço o tempo e fico... e fico a contemplar
a beleza do Algarve que é tanta...que sobeja.

Manuel Neto dos Santos
(S. Bartolomeu de Messines)

 

Valados musgosos

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Ao pé dos valados musgosos, poderá não haver sol mas haverá, sempre, poesia...

Ao pé dos valados musgosos, poderá não haver nem um pássaro, nem a resina dos pinheiros, mas haverá sempre o meu coração buscando uma ilusão...

Para alcançar os mágicos frutos, do silêncio.

Manuel Neto dos Santos, em "CUADERNO DE ESBOZOS, EN POCAS PALABRAS"- inéditos
(Alcantarilha)

Fotografia de Monchique por Isaura Almeida

 

De mim podia falar-te

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De mim podia falar-te… mas não sei
Que não saber é tudo o que te ofereço,
E ao dar-te já recebo o que não tinha.
Mendigo, pela vida, a coisa minha;
A rés do sonho, ao rés do que apareço
Espalhando restos… ente o azul e a grei.

*
Casualmente, com o luar no meio
Esbraceja a minha alma boquiaberta
No naufrágio da onda que me tarda.
Sou mestiço de mim, da voz bastarda
Que lavro em versos, só que em parte incerta
Na batalha que enceto com o receio.

*

Até que todas as coisas sejam mudas
Pela morte que o meu canto há de calar
Direi, aos quatro ventos, que resisto.
A minha voz de amante és tu, oaristo
Como se despe a lua do luar
E as sombras faz maiores,

Manuel Neto dos Santos, do livro "Sulino"
(Alcantarilha)

Fotografia de Diamantino Inácio
(Faro)

 

À beira-mar

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Tal como um búzio caído
Meu amor
À beira-mar
Pus na guitarra o ouvido
Tive a alma a soluçar
Pelo mar
Com o mar

Foi tão triste essa alegria
Vibrando cá bem no fundo
ó Meu amor, como eu queria
Oferecer-te o fado
E o mundo
Mais profundo
Mais profundo

Tal como um búzio na areia
Das praias do meu país
É a saudade que enleia
A espuma de ser feliz
Neste sonho de raiz
De marés
Português

Desde então, o meu destino
É o meu xaile traçado
Em cruz, mortalha do peito
Sou do fado, e deste jeito
Por ter um búzio guardado
No areal da aventura
Mais pura

Manuel Neto dos Santos em TEXTOS PARA FADOS- inéditos
(Alcantarilha)

Fotografia - Praia do Castelejo . Vila do Bispo por Eurídice Cristo

 

Fala mais baixo

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Fala mais baixo, deixa a tarde ser
O entardecer crepuscular do ocaso;
Se, por acaso, a noite não vier
Que possa eu oferecer meu peito raso
De luz, sanguínea e triste, como Espanca
Espancada num soneto, pela Saudade.
Que chegue a noite, ainda só metade,
Numa névoa lunar; etérea e branca.

.
Fala mais baixo, tal como fazias
Entre os meus braços, nos suspiros de antes…
Na ternura dos beijos, pois que amantes
Foi toda a eternidade, em breves dias.
Sejamos nós a tarde- quase- não,
A noite ainda- não mas mesmo- quase
E aos búzios dos ouvidos, traz a frase:
“ Amor, meu terno amor, ó sedução!”
Fala mais baixo, para que o pleno escuro
Derrame, sobre nós, a luz e a seda
Que a lua já desfralda, pela vereda
Das formas do teu corpo, que procuro.
Fala mais baixo, deixa vir o dia
Nos espasmos de amor, de amor dormente…
Murmuro ao teu ouvido. Ouves? Sente:
“ Ó sedução, meu terno amor, magia!”

.
Manuel Neto Dos Santos
(Alcantarilha)

Fotografia de Diamantino Inácio
(Faro)

 

Rumor de água

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Onde um rumor de água é só silêncio,
Tenho a surdez de mim, rasgada, inteira;
Ofereço o ribombar desta maré
De mil versos diversos,
De canseira; morro de pé.
Dezasseis luas altas
Um ano e pouco,
Uma eternidade;
Desde que partiste,
Triste,
Do que não sei quem sou…
Sou só metade,
Será que me sobejas, que me faltas?
Na minha noite de quatro muros
Rasguei portas e janelas
No comprimento, e largura;
Sonhos por terra,
A abóbada celeste por loucura.

Manuel Neto dos Santos, do livro "Sulino"

Fotografia da Praia da Rocha por Filipe Santos Photography/Fotografia

 

Alentejo

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Sei dos meus poemas como sobreiros em carne viva e de todas as ralações do mundo; dos impérios (des) feitos em cacos e das ideologias como manteiga no focinho do cão, guardando o monte...
Sei dos meus poemas como o cante dolente e barroco por precisar da solidão e desconforto.
E se, por vezes, finjo estar dormindo... durmo envolto na samarra em pleno Verão; e digo-vos que estive “dormimorrendo” mas morrer, por agora, ainda não.

Manuel Neto Dos Santos, "Aurora Boreal ao Sul"
(Alcantarilha, 21 de laneiro de 1959)

Arte - Estremoz por Isabel Zamith

 

Ao Sul

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Deixássemos nós fluir, da ponta dos dedos, as carícias dedilhando a demora de uma ausência maior... e tudo, à nossa volta, desabrochava como um terreno inculto, ao Sul.

Deixássemos nós fluir, na gaiatez de um sorriso, na cumplicidade das horas que já não são o dia, e ainda não são a noite... e seríamos um, apenas um;
eu como se fosse o céu que é mar, e tu o mar como se fosses céu... e então, seríamos (meu amor) da imensidão poética do Azul, a moldura perfeita, o mais perfeito debrum.

Manuel Neto Dos Santos, em " AURORA BOREAL, AO SUL" - em construção-
(Messines)

Fotografia de José Manuel Guerreiro
(Quarteira)

 

A Camões

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Ouvindo o que o mar dizia
Com a surdez dos olhos meus,
Fui escutando…e fiz-me deus
Fiz-me ao mar…e fui POESIA.
Fiz-me ao sal…e fui Império
Fiz-me ao Sul…e fui a gesta.
Perdi tudo. Eis o mistério
Da alma que ora nos resta.

1.2.98
Manuel Neto dos Santos
(Poeta, actor e declamador, tutor de língua portuguesa, nasceu em Alcantarilha (Silves) a 21 de Janeiro de 1959)

Arte - Adriano Aires
(Quarteira)

 

Tudo vale a pena

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De como tudo vale a pena

Não há remorso de nada, embrenhado
Na cadência dos dias e das noites;
Tudo flui, por si e por inteiro.
Não lembro o que não tive
E do que sonhei ter… ainda menos.

Por isso, tudo vale a pena…
Com que escrevo, e descrevo, os lagos dos meus olhos;
Tão serenos.

Manuel Neto Dos Santos, "142 íntimas cartas de público segredo" (a publicar)
(Alcantarilha)

 

Livre!

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Livre! Sou livre como é livre tudo
Quanto, por ter nascido, mais não é;
Sou livre, nesta força de maré
Com que os versos me invadem, a miúdo.
Ninguém me prende, nem o Amor sequer;
Sou homem livre. Que maior riqueza
Não pode ter doado a natureza
A quem se libertou, logo ao nascer?
Traz, o esplendor do dia, a placidez da noite.
Traz, em teu corpo todo, o encanto que preciso...
Cantar-te-ei, de mim, outro cantar de Amigo.
Cantar- te-ei, de nós, o amor onde se acoite.
Traz, de uma noite, a calma, do dia o alvoroço
Que ponha, em nossos corpos, um reboliço imenso;
E dar-te-ei, de mim, de nós espiral de incenso.

Manuel Neto Dos Santos, em "Do espanto que, pelas sombras, se equilibra à luz do dia claro, à noite escura" (a publicar)
(S. Bartolomeu de Messines)

Fotografia de Pedro Cabeçadas
(Faro)

À altura do horizonte

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À altura do horizonte,
Aceita-me o conselho;
Esquece-te de ti, de olhares
A ponta dos teus pés.
Tu és o todo que contemplas,
A reverberação da luz és tu,
Na luz que ri…
Ou será, de longe, o espelho?

Manuel Neto dos Santos, "Dorsos de luz de águas mais profundas"
(Messines)

Fotografia - Faro por Pedro Cabeçadas
(Faro)

Paisagem

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Deixo habitar, em mim, toda a paisagem;
Entra pela pele nervos, pelas artérias
E põe nuances, vagas e etéreas
Para a descoberta, a breve cabotagem.
E eu sou o que contemplo, a vastidão
Deste redor esbanjado à minha frente
E em mim ressurge um “quê” de tão contente
Que eu acho estar ”além” meu coração.

Manuel Neto Dos Santos, em "Tímida Exuberância" (a publicar)
(Alcantarilha)

Fotografia - Algarve por Vitor Pina - Photography

 

 

 

 

Vou passar a noite com estes dias

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(Rosa Alice Branco)

Redescobrir-lhes as formas, os contornos e os limites desenhados milimetricamente na postura do olhar atento.
Visita-me depois, bem mais tarde, quando, a desoras, o meu corpo balouçar na dolência do encanto e do fascínio…
Não me acordes, deixa-me dormir um pouco mais entre os lençóis de uma ilusão maior.
Vou passar a noite com estes dias;
Vou pôr à porta da alma um letreiro gravado a tinta do luar;
Não incomodar!
Se assim for… retirem a areia da clepsidra primeiro.
Procurem-me ao longe… será o meu sonho na barcaça, além, à beira mar.

Manuel neto dos santos, no livro "Passionário" (a publicar)
(Alcantarilha)

Fotografia - Senhora da Rocha por Jorge Florêncio
Senhora Da Rocha

Morre-se por aqui

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Morre-se por aqui, na letárgica maneira de um pássaro sem interesse pelo voo...

Sustentamo- nos do ar rarefeito, na raridade do sonho possível de um oceano que espera ser desvirginado pela quilha da descoberta...

Morre- se por aqui.
É todo um país que esgravata a pátria lodosa do silêncio...
Todo um país em mim... Como o braço de um náufrago, e a alma escancarada e muda, sem um grito; aberta.

Manuel Neto dos Santos, em " Aurora Boreal, ao Sul", inéditos (2015)
(Monchique)

Fotografia de Pedro Cabeçadas
(Faro)
 

Linhas do amor

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Linhas do amor na página da face
Dos valados derrocados, pelas fazendas.
Ó canto da cigarra tresloucado,
Ensurdecendo amêndoas e al- farrobas.
Rosa –dos- ventos;
Almeixário antigo
O figo ao sol,
Esteiras de tabúa em lunipleno…
Venho de al- Gharbe, na memória dos alqueires
E de arrobas…
Que todo este meu canto é agareno,
Que tenho em Ibn Ágil meu farol.

Manuel Neto dos Santos, do livro "Sulino"
(Alcantarilha)

Fotografia - Flor de amendoeira por Euridice Cristo

 

Aurora Boreal ao Sul - sala às escuras

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Ando por dentro de mim como se andasse dentro de uma sala às escuras. A amplitude nocturna das coisas relembram- me cidades desertas e praias sem peugadas sob o toldo estrelado da abóbada celeste... ando por dentro de mim com um ar de espanto, como o luar a encher o jardim, como se todo ele fosse feito de afecto. Ando por dentro de mim, como se os nomes reais fossem canções à espera de uma voz ou uma vida afogada na poesia, para que seja insólito e distinto e meu semblante e um sortilégio de luz os salões sem mobílias. Ando por dentro de mim como se fossem breves as manhãs e tudo quisesse ser, em demasia. Rasgo janelas nas muralhas e o frio irrompe como um abraço ou uma entoação em busca de um suspiro. Ando por dentro de mim, como pelas franjas das arribas ou as lambidelas de incêndios... com o único propósito de, num milagre avulso, me reencontrar; em pleno dia

Manuel Neto Dos Santos, no livro "Aurora Boreal ao Sul"
 

 

(Alentejo)


Sei dos meus poemas como sobreiros em carne viva e de todas as ralações do mundo; dos impérios (des) feitos em cacos e das ideologias como manteiga no focinho do cão, guardando o monte...
Sei dos meus poemas como o cante dolente e barroco por precisar da solidão e desconforto.
E se, por vezes, finjo estar dormindo... durmo envolto na samarra em pleno Verão; e digo-vos que estive “dormimorrendo” mas morrer, por agora, ainda não.

Manuel Neto Dos Santos, "Aurora Boreal ao Sul"
(Alcantarilha, 21 de laneiro de 1959)

Arte - Estremoz por Isabel Zamith

 

Mar sem praias

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Num amor grande como um mar sem praias,
Sem os teus beijos, minha pele é sobro.
Minha alma, de sal, já tem o dobro
Do mar que tem, nas ondas, suas aias.
Faço dos versos, rimas, as alfaias
Para dar à saudade um fim, pôr cobro
Ao pranto do meu rosto, tão salobro,
E vejo que, memória, me desmaias.
Ergue-te e anda, tu, fascínio ancião
Pela calda de espuma e madrepérola;
Sinto ainda nas mãos a dor de férula;
Palmatoada agreste em plena escola,
E roupa recebida, por esmola...
Mas fui rico, por ti, amor de então.

Manuel Neto Dos Santos
(Messines)
 
Fotografia Leos Photos

 

Morre-se por aqui,

Morre-se por aqui, na letárgica maneira de um pássaro sem interesse pelo voo...

Sustentamo- nos do ar rarefeito, na raridade do sonho possível de um oceano que espera ser desvirginado pela quilha da descoberta...

Morre- se por aqui.
É todo um país que esgravata a pátria lodosa do silêncio...
Todo um país em mim... Como o braço de um náufrago, e a alma escancarada e muda, sem um grito; aberta.

Manuel Neto dos Santos, em " Aurora Boreal, ao Sul", inéditos (2015)
(Monchique)

Fotografia de Pedro Cabeçadas
(Faro)
 

Aurora Boreal ao Sul

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Vasculho, ainda, as relíquias das folhas outonais. Como não tem chovido...ei-las hirtas, firmes enrijadas de étimas cores e rebordos de aço.
Vasculho, ainda, as relíquias de dias escaldantes... como quando dormia entre os teus braços; sem esperança nem cansaço.

Manuel Neto Dos Santos, "Aurora Boreal ao Sul" (a publicar)
(Alcantarilha, 21 de laneiro de 1959)

Fotografia de Euridice Cristo
(Olhão)

 

Breves Notícias do Silêncio

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O interior da existência de um homem é o oceano mais profundo que possamos navegar; navegar, por dentro de um rumor constante, sob a mestria da lua, para que a melancolia nos surja como quem vive pelos livros, pelos poemas, pelas profecias que lê…

Manuel Neto Dos Santos, "Breves Notícias do Silêncio" (a publicar)

Fotografia - Praia da Marinha - Lagoa, por Vitor Pina