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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

A lenda das amendoeiras

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Dizem que, num certo dia
A flor da amendoeira
Surgiu na terra algarvia
Desta bizarra maneira:

Quando esta província linda.
De tão nobre e alta fama,
(Há já muito!...) estava ainda
Sob jugo da moirama.

Era então o rei dos moiros
um mancebo de olhos belos,
Que tinha muitos castelos,
Fartas terras e tesoiros.

Era audaz e muito forte
esse filho do Alcorão;
Mas, certa vez, veio do norte
Combatê-lo, um rei Cristão.

Trazia, em navios de guerra,
armas e homens sem conta
Que encheram a nossa terra
De lutas, de ponta a ponta!

Mas dessas pugnas cruéis
Plenas de sangue e horror,
Foi o rei dos infiéis
Finalmente o vencedor...

Quando os cristãos debandaram
Após e inútil empresa,
Entre os cativos, deixaram
Gilda, uma linda princesa...

Da cor do céu os seus olhos
Tinham raios de sol no fundo;
Eram fios de oiro, os cabelos;
Um morango maduro, a sua boca;

E a medida dos pés era tão pouca
Que tão mimosos, no mundo
Ninguém poderia tê-los!

De corpo airoso, de junco. As mãos, espuma
Branca do mar. E o seio, erguido,
Duas albentes luas a nascer,
Ou duas pombas cativas, cada uma
Pelo seu lado debicando, a querer
Fugir da prisão leve do vestido....

E já se fica a saber
Que outro enlevo igual a isto,
Nunca ninguém tinha visto
Nem nunca havia de ver...

Por isso, quando calhou
A olhar a nobre donzela,
O rei dos moiros ficou
Enfeitiçado por ela....

Também a jovem, na frente
Desse forte e belo moço,
Sentiu um novo alvoroço
Dentro do peito inocente...

E em breve, nas terras todas
Do Algarve, em grande afã,
Se festejavam as bodas
Do rei moiro e da cristã!

Porém, uns tempos passados
Apareceu a princesa
com os olhos ensombrados
por uma funda tristeza...

De tão estranha doença
Ninguém sabia o segredo;
Era uma tortura intensa,
Coisa de cisma ou bruxedo...

Mas a princesa infeliz
Contou ao rei a verdade:
-Que morria de saudade
Da neve do deu país....

E o moço, então,com fervor,
À esposa fez uma jura:
Mostrar-lhe o seu reino em flor,
Da cor da neve mais pura!

Vieram do fim do mundo
Umas árvores singelas
Que, neste solo fecundo
Cresceram, fartas e belas...

E certo Inverno surgiu
em que, qual sonho ou magia,
Toda a terra se cobriu
da flor da neve algarvia...

João Braz Machado, do livro "Esta riqueza que o Senhor me deu"
(poeta - jornalista e escritor, São Brás de Alportel, 13 de março de 1912 - Portimão, 22 de junho de 1993)

Fotografia - postal ilustrado - amendoeiras em flor no Algarve