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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Sou daqui

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Bichos somos de um certo chão
o único
em que nossos passos encontram seu verdadeiro
sítio e som e ritmo
e nossos sentidos desabrocham
suas mais íntimas pétalas.
Sou daqui. Só aqui pertenço
aos três reinos da Natureza simultaneamente. Sei que
fomos originariamente pó de estrelas
mas só as estrelas algarvias me reconhecem :
piscam-me o olho e pestanejam com fulgor.
Sou filha do casamento da terra com o mar.
Meus olhos não sabem viver sem uma paisagem de água
e meu corpo precisa de assentar neste chão
de aqui vir
ritualmente acertar-se com esse sopro interior a que
chamamos alma.
No exílio reinventei com palavras
todos os sítios em que nasci e cresci
e agora são mais meus
porque assim os dei de novo à luz.
Meus deuses são morenos
como a terra e têm olhos de mar
como eu.
Um dia encontrei um na praia todo nu com um camaleão
no ombro e fugi.
Às vezes são venerados como santos
nas igrejas:
vestem-lhes a esplendorosa nudez
e dão-lhes nomes cristãos e tarefas a cumprir:
a de curar os olhos
ou os ossos ou a garganta
e há também um que protege
os animais.
Têm à volta bonecos de cera com a forma das partes
do corpo ou dos bichos que curaram.
Mas nas noites
de lua cheia fogem do bafio dos altares para o ar livre
e alegremente convivem com os deuses não domesticados
que continuam a viver à solta como bichos vadios
e juntos
cortejam as mouras encantadas que se evadem de suas cisternas
e ficam com eles a namorar
até de madrugada.

Teresa Rita Lopes
(Faro)

Fotografia de Jorge Florêncio