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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Um Conto de Natal

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1984

Quando a noite chegava, levava o banquinho para a porta da rua e, enquanto a avó acabava uma camisola para o seu tio Miguel, que andava na tropa, entretinha-se a embalar a sua Nila. Era assim que se chamava aquela boneca de trapos, da qual gostava tanto! - feita pela avó e pela avó deixada na botinha em cima do fogão, numa noite de Natal. Quanto tempo já passara.. mas como todos nós, ela também tinha recordações e com elas se aproximava da infância, quando queria. Nesse tempo já esfumado, o Natal enchia-a de interrogações e de espanto…

Um dia arranjou coragem e resolveu descobrir o segredo do Natal. Queria ver com os seus olhos o Menino Jesus, - e quem o não quer? Já de camisinha de alças… não se lembrava do pijama de flanela, estampado… comprado na feira, mas da camisinha de alças que quase sempre lhe cobria a nudez, devido à doçura do clima. Pronta para se deitar, trepou pela cadeira alta e apertou a torcida do candeeiro a petróleo - colocado sobre a meia-lua da mesa redonda da sala comum, ficando, assim, com menos luz. Na memória não aparece ninguém. Como pode ignorar a avó e o avô? Certo, certo, é que saltou para a grande cama e ali ficou, de olhos muito abertos para espantar o sono. A avó, - agora, sim, veio junto dela para lhe aconchegar a manta e com ela rezar.

“Padre Nosso pequenino
Quando Deus era Menino
Pôs o pé no seu altar
Com o sanguinho a pingar

É já a Noite Santa
Já o galo se levanta
Já Jesus subiu à cruz
Para sempre
Ámen Jesus”

E como ainda se mostrasse com espertina, a avó lá prosseguiu:

“Cruz em monte
Cruz em fonte
Que o pecado
Não me encontre
Nem de noite
Nem de dia
Padre Nosso
Ave Maria”

Talvez mais uma reza, e a sua mocinha pegasse no sono.

“Anjo da Guarda
Minha companhia
Guardai minha alma
De noite e de dia”

“Não quero dormir", - dizia para si própria, tentando vislumbrar pelas pestanas entreabertas, agarrafa de vidro azul com florinhas brancas em relevo. “ Quero ver o Menino Jesus! Os olhos, habitando-se à penumbra, iam contornando os cálices de igual cor. Porém, mal a avó virou costas, levantou-se de mansinho e, pé ante pé, deu com ela própria a atravessar as cortinas de cretone florido, colocadas como barreira de divisões mais íntimas. Já na cozinha, à direita, o poial de pedra e sobre ele, em repouso, a grande talha de barro vidrado com uma torneira centrada no bojudo ventre. O que teria dentro? Água? Não! - tinham-na canalizada. Azeite? Tremoços? Carne de porco salgada? Atum? Talvez fosse um depósito para a água, em dias de falta! Talvez, quem
sabe? Ou fosse para tudo ou fosse para nada, sabia lá!

Josefa de Lima, em "O Casapiano"