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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

As terras

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Terra aonde nasci, brava, movimentada,
Velha amiga do mar, minha terra arrojada,
Onde nunca o valor se extingue e se destrói,
Branca filha de heróis e mãe de tanto herói,
Bela, como tu és, é que te quero mostrar,
Com mirantes de neve, erguidos, a olhar,
Seguindo sobre a água, os sonhos e as velas,
Sob a copa do céu a sacudir estrelas!
Tens ruas brancas que se torcem e coleiam
Dando a impressão que com volúpia ondeiam,
E tendo, no esguio e apertado espaço,
O carinhoso ar afável dum abraço,
Onde há não sei o quê de morno e sensual,
Um bafo de serralho ardente, oriental.
[...]
A casaria tem alvuras argelinas.
Curvas da cor do gelo a desenharem ruas,
Têm alvores sensuais lembrando espáduas nuas...

Uma volúpia doce, astral, desfalecente,
Dissolve-se no ar embriagante e quente...
[...]
Tu tens a languidez, a dormente magia
Que abre nos corações a flor da fantasia,
Um hálito de sonho, ardente e perfumado,
Que levanta as visões dormentes do passado...
Assim, alva e serena, assim misteriosa,
Com teu lindo perfil de branca intemerata,
És como uma grácil moira voluptuosa,
Rebuçada, ao luar, no seu morghot de prata.

João Lúcio
(Olhão, 4 de julho de 1880 - 26 de outubro de 1918)

Fotografia de Jorge Florêncio
Senhora Da Rocha