Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Balada do menino enganado

11124166_418708874968178_3800478991070776221_o.jpg

 
Por que me deram, quando fui menino,
Tantas Quimeras para acreditar?
Por que teceram o meu destino
Com fios de Oiro e de Luar?

Por que me fizeram Rei dum reino de brinquedos
E me deram a ilusão
De poder segurar entre os meus dedos
Mundos feitos de bolas de sabão?

Por que puseram asas nos meus braços
Que rolaram o Sol p`lo Céu sem fim,
E floriram estradas para os passos
Que me levaram para além de mim?

Ai!, encheram-me os olhos da Poesia
Das noites estreladas!
Embebedaram-me de Alegria,
E sagraram-me herói de lindos contos de Fadas...

Aos meus ouvidos colaram
Búzios do Mar a cantar...
__E os meus ouvidos ficaram
Presos das falas do Mar...

Na boca das mulheres mostraram-me medronhos,
Fazendo-me pensar no gosto de mordê-los...
E, p`ra me adormecer, mandaram lindos Sonhos
Com os dedos da Noite a afagar-me os cabelos...

Por que me deram tudo nessa idade
Em que fui Rei dum Reino de Brinquedos
E julguei ter nas mãos a Felicidade
Só tendo bolas de sabão nos dedos ?

Por que quiseram enganar-me assim,
Se mais tarde, um mau destino
Havia de matar dentro de mim
Todos os meus encantos de menino?

Ai!,mais valera não ter tido nada
Lá nessa infância linda em que fui Rei,
Do que andar nesta vida amargurada
Buscando os sonhos que não mais achei!

Que, para viver sem saber
Aonde para a Ventura,
Bem melhor era morrer!...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Mas que posso eu fazer,
Se nem a vida me quer,
Nem a morte me procura?!...

João Braz
(S. Brás de Alportel-13 de março de 1912 \ Portimão - 22 de junho de 1993)

Fotografia de Pedro Cabeçadas - "por do sol na Ria Formosa"
(Faro)