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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Deitado na areia

 

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Horas e horas deitado na areia caído
Na areia enterrado na areia
Ou por algum braço arremessado. Pouco a pouco
Deixei de sentir os grãos finíssimos
Colarem-se-me à pele. Deixei de ver
O céu que meus olhos olhavam.
As primeiras ondas que me tocaram os pés
Ainda as senti — bocas minúsculas
Bebendo o meu sangue silencioso —
Mas as segundas já não eram frias nem quentes já não eram
Suaves nem ríspidas já não possuíam
Lábios nem dentes. E nada sei
Das seguintes como nada já sabia
Da areia nem do sal nem dos bichos que passavam
Por cima do meu corpo depois de terem passado
Pelo corpo da areia.
Durante algum tempo durante a rigorosa eternidade
De um momento
Foi como se eu fosse também areia mar e sol
E talvez eu tenha sido
Areia sol e mar. O resto
É vento.

Casimiro de Brito
(Loulé - Algarve, 14 de janeiro de 1938)

Fotografia - Praia do Amado, Costa Vicentina, por Euridice Cristo
 

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