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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Eu- Tudo

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Amar é ser o outro e sendo assim...
Sou tudo o que se diz e quem diz; fruto,
É fruto de seguida, no confim
De um estado de alma mais sublime, e arguto.
Amar... é ser areia, ainda virgem
À beira mar; a que retrata os pés
Que são eternos... até à vertigem
Do ribombar, espumado, das marés.
Amar... é ser, não sendo, por inteiro.

.
Por isso, eu amo a terra, e sou paisagem,
Sou madrigal, melódico, outeiro
Se o trinar de algum pássaro vem na aragem.
Amar... é ser requebros do ribeiro
Os livros de linhagem de invernias
De enxurradas barrentas, e bravias
Que desnudam raízes do salgueiro.
Amar... é ter contornos quase aguados
E, nessa imprecisão, ser mais perfeito.
Canto o riacho. Ali, ou no meu peito?
Por entre os seixos (sonhos?) já lascados.
Amar... é ser, e ter, e mendigar
O brevíssimo instante cujo saque
Vem dar, à alma, outra dimensão.
Contemplo a orquídea brava, neste chão,
E sou orquídea brava quando um baque
Me faz surgir, do xisto, em seu lugar.
 


Manuel Neto dos Santos, em "O Viandante das Palavras", em "Timbres"

Fotografia - Grutas de Benagil (Algarve) por Martyna Mazurek