Hoje quero escrever
Hoje quero escrever
não pelo talhe doce do recorte oblíquo
da forma redonda e quase perfeita da palavra,
tal como o poema me pede.
mas pela irregularidade agreste
da sua mais viva e gritante aresta.
Escrever
com verbos cortantes como lâminas
forjadas na raiva destemperada,
afiadas no silício mais rubro e abrasivo da vergonha.
Pode alguém descrever o belo
quando sente o peito esmagado pelo desespero
espelhado nos olhos de tantos refugiados e náufragos
em busca do sol e do sal da vida?
Pode alguém escrever um hino ao amor
quando nos olhos sente inflamado
o volume inerte, falecido duma criança
emborcado na espuma do areal?
Na ignomínia deste dia a dia,
pergunto; para que me serve a poesia?
Miguel Afonso Andersen, no livro "Mar de Dentro"
Vítor Laranjeiro Photography