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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Madrugada

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São quatro da manhã e, na cidade,
Há luzes em janelas, salpicando
A noite duma alegre claridade.
Batéis de vida e insónia, navegando
No mar da noite velha, sem idade,
Ou, indo trabalhar, velas içando,
Seriam gritos de alma amargurada,
Ou ais de quem a crise pôs sem nada.

São quatro da manhã e minha dor
Quis ir sorver ar fresco na janela.
Se a mágoa só vivesse no calor,
Então o frio dava conta dela.
Porém, não é assim. Só tem valor
Mezinha para o corpo com mazela.
O mal que me acompanha não tem nome,
Mas vai roendo a alma e a consome.

São quatro da manhã e, eu, vendo a lua
Na mais bela das fases: lua cheia.
Por isso, é menos triste a minha rua
Pla branca luz que a sombra mal rodeia.
Por entre o arvoredo, se insinua
Reflexo de automóvel que passeia.
Ali, abandonado, sou também
Criança, a soluçar por não ter mãe.


Tito Olívio, do livro "Folhas Novas"
(Faro)

Fotografia de Faro por Pedro Cabeçadas