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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

O Alfabeto de João De Deus

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Em frente do quadro preto, o nosso colega abriu os braços, enviou o olhar para o fundo da sala e disse – “A Vida, poema de João de Deus”. Baixou os braços e estendeu as duas mãos como se fosse oferecer um material precioso aos seus companheiros - “ A vida é o dia de hoje”. Recolheu os braços, mas não as mãos que deixou estendidas - “A vida é ai que mal soa, A vida é sombra que foge.” E ao passar pela palavra ai, elevou a voz em tom de fundo suspiro. As mãos estavam compostas junto à pequena camisa branca. O cinto preto fazia dele um homem em miniatura. Um lacinho azul criava um tom de cerimónia tão alto que apetecia chorar. Ele levou os braços de novo adiante e falou de neve, agitou-os quando falou do fumo que se esvai, e do momento que passa, depois juntou as duas mãos e encostou a cabeça aos dedos como se pensasse, e pronunciou - “Mais leve que o pensamento”.
Nós estávamos siderados, sentados, elevados e ao mesmo tempo diminuídos pela perícia do nosso colega trajado a rigor. Então ele falou de vento, folha, flor, corrente, sopro, estrela cadente, ave, nuvem, mares, ondas, pena e asas, e a cada uma dessas palavras cheias que recitava, os seus braços faziam um gesto que se assemelhava em alguma coisa com o ser invocado. Os braços do nosso colega ondularam, tremeram, voaram por cima da sua cabeça, e todo o seu corpo se encolheu como se tivesse sido trespassado por uma dor, e depois se alongou como se dela tivesse saído ileso, quando atirou para o chão, e depois para o ar, os quatro últimos versos - “A vida, pena caída, Da asa de ave ferida, De vale em vale impelida, A vida o vento a levou!” Disse ele. Nessa altura, nós não sabíamos o que era o aplauso. Ficámos silenciosos, estarrecidos, aprisionados num momento que não queríamos que se movesse. Mas moveu-se. O nosso colega regressou à primeira carteira, ainda a tremer, todos nós a olharmo-lo com o respeito dos súbditos, e eu, a partir do meu lugar, não conseguia segurar o instante. Foi assim que aprendi a pronunciar a primeira letra do alfabeto, aquela que ensina a decifrar o enigma da transitoriedade, e com a qual se escrevem todas as palavras do mundo.

Lídia Jorge, em "Efeméride"
(Loulé, Boliqueime, 18 de junho de 1946)