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RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

O Algarve que eu descobri

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Mas o Algarve que eu descobri maravilhada, aí em 1961, não é este de agora. Aí está: é um dos problemas graves do país, pensa-se que a cultura é só livros, teatros, cinemas, mas a cultura tem a ver com o dia-a-dia e o comportamento das pessoas. E a cultura, no quotidiano, foi destruída, como o Algarve foi destruído. O Algarve era uma maravilha. (...)
Bem, no Algarve, em relação ao Norte, não há aquele cheiro a maresia, a iodo. Mas o Algarve tem para mim a grande vantagem do calor, dos dias quentes, de que gosto muito. E ainda me lembro das grutas da Praia de D. Ana onde se ia de barquinho a remos, sem barulho, sem cheiro a gasolina, chegava-se lá e estavam desertas, («o esplendor pairava solene sobre o mar»), das cidades calmas e maravilhosas. Lagos era uma cidade meticulosamente limpa, cheia de gente honesta.
Passei vários Verões numa casa em que tinha só um fogareiro e um fogão de dois bicos, não tinha sequer esquentador. Havia um depósito no telhado em que a água ficava morna e era suficiente. Não tinha frigorífico, havia só uma geleira e um homem que vinha todos os dias, de carroça, trazer gelo.
Muitas vezes eu ia a Lagos a pé, às compras. Outras vezes ia a empregada. Um dia ensinei-lhe o caminho e o que havia de comprar, etc., para ela fazer o que eu tinha feito sozinha na véspera. Depois de lhe dizer tudo isso apercebi-me que aquilo era uma espécie de poema e escrevi mais ou menos o que lhe tinha dito. Chamei-lhe «Caminho da Manhã»

Sophia de Mello Breyner Andresen