Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

RUMO AO SUL

RUMO AO SUL

Poema de Amor

11109158_412643898908009_1090051073144447758_o.jpg

 

O Céu, as linhas de luz na água,
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.

Nuno Júdice, em "Poesia Reunida"
29 de abril de 1949, Mexilhoeira Grande

Fotografia de Pedro Cabeçadas